Lindemberg no sequestro de Santo André - Estratégia e Negociação

Na semana passada o país parou para acompanhar o sequestro da jovem Eloá pelo seu ex-namorado que acontecia em Santo André até sexta-feira por volta das 6 da tarde quando ocorreu o desfecho trágico que culminou na morte da adolescente. O interessante foi que eu tinha postado em meu twitter no mesmo dia às 10 da manhã dizendo que “iria acabar mal essa história”! Lá eu disse que o negócio ia acabar mal por causa do despreparo estratégico da polícia como aconteceu no caso do  Ônibus 174 no Rio de Janeiro em que a refém também faleceu (quem puder ver o documentário, vale muito a pena!).

Eu pude de certa maneira prever o que viria a acontecer, não por chute, mas por uma análise de comportamento e estratégia nas decisões tomadas ali tanto pelo sequestrador como pela polícia.

Na estratégia e nos relacionamentos entre pessoas é fundamental perceber os motivadores reais das pessoas, as intenções não-declaradas que na verdade são os reais influenciadores das decisões e com isso é possível prever os próximos passos do outro (que pode ser um oponente, concorrente, parceiro, cliente ou mercado) e você ver se o processo está indo pelo caminho que está no seu objetivo real.

No caso de Santo André houve um conjunto de motivadores reais que tornava quase impossível um resultado positivo. Assim o que eu tinha montado na sexta de manhã, ao comentar no meu Twitter, é a seguinte lógica abaixo:

Sequestrador (Lindemberg):
Motivador aparente / declarado -> sair de lá vivo, com garantias
Motivador real -> ficar junto da pessoa que ele “gosta”, ou seja, ele não queria sair para ele o bom era ficar ali mesmo, ainda mais com o “apoio” da mídia tanto que ele se auto-denominava “o principe do gueto”.

Polícia (negociadores):
Motivador aparente / declarado -> encontrar a solução em haja menos vítimas possíveis
Motivador real -> não ser culpada por executar um jovem em crise amorosa que não tem antecedentes criminais

Esse conjunto de fatores foram os que tornaram praticamente inviável uma solução mais feliz para o problema. Pois, se de um lado o sequestrador não tinha nenhum interesse em sair de lá, a polícia não criou situações de “stress / desconforto” para ele não querer ficar. Sendo por corte de luz e comida ou por uma invasão planejada em que a última alternativa seria executá-lo. Pelo contrário, a polícia gerava cada vez mais “conforto” para ele cedendo a tudo que ele queria, até ao ponto de devolverem uma refém (a jovem Nayara).

O que poderia ser feito é alguém do Estado com uma visão estratégica observando os motivadores reais da situação intervir e agir de algum modo para que os motivadores reais dos negociadores, fossem mudados, seja pela troca de comandantes, por “garantias juridicas” ou algo que fosse proporcional a situação. Assim, o que causou o final infeliz foi a intenção de “tirar o corpo fora” do comandante da polícia, o que no final das contas diz que era preferível a Eloá morrer do que o Linderberg (sequestrador) já que se o Lindemberg morresse seria o comandante culpado pela ação, porém no caso da morte da Eloá o culpado seria Lindemberg e a polícia seria culpada por omissão (o que é bem subjetivo e difícil de acusar e dar em algum problema juridico, vide Ônibus 174), que é justamente o que está acontecendo agora… basta ver a declaração do comandante da operação ao dizer: “Quem matou a Eloá não foi a polícia, foi o Lindemberg. Nós não temos culpa de nada!”.

É importante atentar que eu não quis aqui entrar no mérito de que executar o rapaz com um atirador de elite seria melhor ou não ou se a polícia foi ineficiente ao invadir a casa em 15 segundos sendo que o tempo padrão para isso é no máximo 2 segundos. Porque de ações táticas policiais eu entendo nada, mas sim me dedico muito ao comportamento humano e estratégias. E vejo que esse tipo de reflexão pode contribuir muito no nosso dia-dia assim como quando atuamos em empresas.

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