Archive for August, 2009

Entrevista sobre startup e inovação - Parte 2

Essa é a continuação da entrevista que fiz para a Revista WebDesign, as perguntas 1 à 5 estão no post anterior.

6 - Ainda no livro “Startup”, Jessica ressalta que “as pessoas gostam da ideia de inovação no abstrato, mas tendem a rejeitar uma inovação concreta que lhes é apresentada porque não está de acordo com o que já conhecem”. Em relação ao mercado digital, de que maneira é possível avaliar/medir a viabilidade de uma ideia para que ela se transforme num empreendimento rentável economicamente?


Isso é muito difícil, o Google que é o maior exemplo de rentabilidade ligada a um projeto de Internet não sabia como ia ganhar dinheiro nos primeiros anos de vida. Repito que só com protótipo e determinação é possível empreender na Web. Muitas pessoas buscam a certeza com pesquisas e etc. Mas para quem gosta de certezas o empreendorismo não é o lugar certo.


7 - Alguns empreendimentos digitais brasileiros, como a boo-box, já receberam algum tipo de aporte de empresas de capital de risco. Durante o CP Labs, realizado dentro do evento Campus Party 2009, executivos de empresas de capital de risco alertaram que muitos empreendedores brasileiros ainda não sabem apresentar adequadamente seus projetos, prejudicando o aporte de verbas. Assim, quais seriam as dicas para quem deseja buscar o apoio de investidores e novos sócios? A elaboração de um plano de negócios (business plan) seria o melhor caminho?


Para quem deseja ter um investidor é inevitável fazer um Plano de Negócios. Porém, o Plano de Negócios é um meio e não um fim em si, ele é apenas um retrato do negócio. Mudar a seqüência dos capítulos ou diminuir de 50 para 20 páginas o Plano de Negócios talvez não resolva o problema, acredito que muitos investidores vêem Plano de Negócios fracos porque os negócios o são. Para quem deseja ter investidores é necessário amadurecer o conceito, diferencial e modelo de negócio o que naturalmente vai refletir no Plano de Negócios e não melhorar apenas a descrição do projeto. É comum pessoas melhorarem apenas o Plano de Negócios, com uma melhor apresentação e formatação e deixar o negócio intacto. Às vezes até funciona para conseguir um investidor, mas a probabilidade de sucesso do negócio é mínima.


8 - Desejo de ter o próprio o negócio e identificar uma oportunidade de negócio. Esses foram os principais fatores para o investimento em um novo empreendimento, segundo a pesquisa “Fatores condicionantes e taxas de sobrevivência e mortalidade das micro e pequenas empresas no Brasil”, realizada pelo SEBRAE. Além do interesse em investir em seu próprio negócio, outro fator fundamental nesta área é criar ferramentas para garantir a sobrevivência do negócio. Pensando nisso, quais são os fatores que vão determinar a continuidade de um empreendimento digital?


O foco comercial. Na maioria das vezes são pessoas técnicas que iniciam um projeto Web e que passaram por empresas nas quais, geralmente, achavam que a equipe comercial tinha vida boa e os técnicos que trabalham de verdade. Quando começam o próprio negócio percebem que as habilidades de relacionamento e entendimento do cliente são difíceis e imprescindíveis para a sobrevivência do negócio.

9 - Por favor, indicar dois empreendimentos digitais brasileiros que você considere bons exemplos, justificando em três linhas o porquê da escolha.

Bolsa de Mulher -  (site)

Um site relevante pelo segmento que se focou em atuar (mulheres) e bem rentável por se formatar como mídia e atingir um público que interessa a muitos anunciantes. Ele é uma prova que não é necessário uma inovação radical com idéias mirabolantes para se criar um empreendimento digital consistente e rentável.

Camiseteria -  (e-commerce)

Pouco explorado no Brasil, os sites de nicho são extremamente interessantes. O Camiseteria conseguiu aliar o Modelo de Negócio mais do que comprovado dos comércios eletrônicos com uma comunidade de designers os quais enviam os desenhos das camisetas a serem vendidas pelo site.

10 - Quais dicas de leitura e cursos você daria para o profissional que deseja se aprofundar neste assunto?

Não acredito muito em teorias de empreendedorismo. Assim sugiro biografias como a do Sam Walton (fundador do Wal-Mart) e do Jeff Bezzos (fundador da Amazon),a leitura de blogs de grandes empreendedores como o do Daniel Heise do Blog Aprendendo Empreendendo e atualidades sobre o mundo dos negócios da Internet no blog Techcrunch

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Perguntas e respostas sobre empreendedorismo e inovação - Parte 1

As perguntas abaixo foram feitas em uma entrevista que dei para a Revista WebDesign de Maio desse ano. Vou separá-la em duas partes para não ficar grande demais no blog.

1 - Levando-se em consideração os princípios fundamentais da web, de que maneira os conceitos de empreendedorismo e inovação estão relacionados e determinam o sucesso de novos projetos?


O empreendedorismo e a inovação são dois comportamentos que visam propor uma nova maneira de resolver os problemas das pessoas, isso significa gerar valor para um extrato da sociedade. Esse aspecto de propor algo novo e diferenciado é ainda mais necessário quando se cria um empreendimento Web por causa da concorrência em excesso. Pois, por mais que um Samuel Klein tenha enfrentado três ou quatro concorrentes ao criar a Casas Bahia, na web existe a imensa facilidade de se criar projetos, além do acesso no mundo inteiro. Assim, você na melhor das hipóteses concorre com players do Brasil inteiro. Imagine criar um site de vídeos, você estará não só concorrendo com o Videolog, mas também com o Youtube e dezenas de sites internacionais.


2 - Para quem busca a inovação, tem uma boa ideia e pretende transformá-la em um empreendimento, quais seriam as principais etapas para lançar um projeto deste porte no mercado digital, em relação à realidade brasileira?


Ao meu ver a primeira etapa é construir um protótipo, rápido e fácil, isso significa com menos de 3 meses para colocar no ar. Vejo muitos negócios que começam grande demais e invariavelmente dão em nada. A segunda etapa é procurar um modelo de negócios, muitas empresas falham em confiar que o dinheiro virá fácil, deve-se testar não só o produto, mas também o modelo de negócios e o foco desde o início tem que ser na geração de receita. E a terceira etapa é conseguir um grande crescimento de caixa para que o negócio se torne viável via investidor, parceiro ou clientes.


3 - No livro “Startup”, de Jessica Livingston, são descritas as histórias e os detalhes de empreendimentos digitais e tecnológicas de sucesso, como Blogger.com, Firefox, Yahoo!, Hotmail, Gmail etc. Na introdução, a autora destaca que adaptação, determinação e perseverança são três das qualidades principais dos empreendedores consultados pelo livro. Pela sua experiência, é possível traçar um perfil ideal para o empreendedor digital? Como um profissional deve se preparar para investir em seu próprio negócio?


Não acredito que haja um perfil, mesmo porque as qualidades que a autora destaca no livro dela são escolhas e não qualidades. Assim, para mim não existe perfil ideal, mas escolha ideal, o empreendedor é o que escolhe fazer diferente, se arriscar e sair da zona de conforto. A única coisa que se pode dizer quanto a perfil é que se não há uma união de visão técnica e de negócios fica muito mais longo o caminho para o sucesso, basta ver que a maioria dos empreendedores são duplas como no Google e Microsoft (alguns não sabem mas Paul Allen iniciou o negócio junto com Bill Gates, só não gosta tanto de holofotes). Quanto ao preparo, estudar administração e negócios ajuda 1% os outros 99% é aprender fazendo, empreendendo.

4 - Em termos educacionais, em sua opinião, o ensino superior brasileiro fornece os subsídios necessários para preparar e fomentar o surgimento de novos empreendimentos no país? Por quê?


De forma geral não. Apenas em poucas faculdades e o que é passado é uma visão muito teórica, baseada em Plano de Negócios, o qual é apenas uma das possíveis ferramentas e não o empreender em si. Chega a ser uma alienação pessoas acreditarem que empreendedorismo é saber completar o “script” de um Plano de Negócios. No entanto, tem de ser reconhecido que tem havido um grande avanço nas faculdades no ensino do empreendorismo, mesmo não gerando empreendedores como poderia o ensino evoluiu bastante de 10 anos pra cá, é um começo muito bom, ainda mais no meio acadêmico que as mudanças costumam ser lentas.


5 - No mercado web, os profissionais brasileiros são conhecidos pela alta capacidade criativa, além do perfil inovador e de adaptação a diferentes cenários. Apesar disso, por que vemos poucos empreendimentos digitais de sucesso no país? Quais seriam os principais obstáculos para ser empreendedor no Brasil, principalmente no segmento de internet?


Há muitas barreiras, além das tradicionais como a burocracia e alta tributação na Web especificamente podemos destacar um forte elemento que é a barreira cultural. Quando eu fui abrir a empresa para a rede social que criei Via6, as pessoas me perguntavam “loja do que você vai abrir?” e quando eu falava que era um site na web, todos perguntavam “mas existe empresa aberta disso?”. Enquanto no Vale do Silício em todo café tem alguém conversando sobre como vai iniciar seu negócio na Web. No Brasil isso é raro, somos criados para sermos funcionários públicos e os mais ousados trabalhar como empregado numa multinacional.

A segunda parte dessa entrevista está nesse post (clique aqui)

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